Este site utiliza cookies. Continuando a navegar está automaticamente a autorizar os mesmos. Saber mais Continuar
Testemunho - Joana Pizarro Miranda

Que cor tem a solidão?

Joana Pizarro Miranda

Conheci a D. Alice num Lar de idosos, em Lisboa.

Isolada da sua família mais próxima e marcada por uma vida de sacrifício, foram-se cavando nela a tristeza e o sofrimento, bem visíveis no seu olhar.

Atravessava por dentro a sua solidão, todos os dias, sem a disfarçar nem negar.

E todos os dias aceitava também um desafio maior ainda: o de estar viva! Aos seus 84 anos sabia, como nós também sabemos, que cada dia traz consigo uma oportunidade de recomeço.

Assim, e apesar das muitas dores que sentia ao andar, e de já ver mal, levantava-se cedo de manhã, arranjava-se, e ajudava a preparar o pequeno almoço para os outros idosos, pondo as mesas. Queria ser útil.

Depois, ligava o seu rádio, ouvia as notícias, pensava-as consigo, e não perdia a oportunidade de uma boa conversa sobre o que tinha ouvido.

Aprendi com a D. Alice - que nunca quis ensinar ninguém - que se está vivo até ao último dia e que não há limitações que nos obriguem a perder a coragem com que podemos viver.

Criámos um laço forte as duas e hoje sinto saudades dela. Marcou claramente a minha vida.

Há idosos, muitos, que não conseguem viver como a D. Alice, apesar de o desejarem, e outros tantos que se afundam no desespero a que pode levar tanta solidão. Uma solidão em que a vida perde a cor, o brilho e o perfume.

Todos eles nos olham e nos interpelam. Como respondemos?

Por vezes, respondemos de forma autojustificada: "os nossos idosos têm comida e medicamentos garantidos, e tudo o resto que consideramos serem as suas necessidades básicas. Podemos descansar; estão confortáveis, em segurança e felizes"!

Estarão?...

Perguntemo-nos como foi quando fizémos nós próprios, uma experiência de solidão? O que sentimos? Como foi viver sozinhos a consciência da nossa fragilidade, sentirmos o fim e o fundo de um problema, sem o conforto de um abraço ou de uma presença com quem o partilhar?

Todas as vidas humanas precisam de ser tocadas umas pelas outras; todas: uma criança, um jovem insubmisso, um adulto bem sucedido, um idoso fragilizado.

Em nenhuma etapa da vida fomos destinados a uma solidão involuntária.

A solidão dos idosos vive-se sobretudo pelas perdas: da independência à capacidade económica, da mobilidade à perda de familiares e amigos, das faculdades intelectuais e físicas à perda do sentido de se ser útil.

A solidão surge então como uma inevitabilidade.

Mas as nossas vidas não se definem por uma sequência de inevitabilidades em relação às quais somos impotentes. Temos todos o poder de constantemente redefinir caminhos e prioridades.

Como sociedade, façamo-lo com coragem e realismo:

A tentação de sermos "participantes de bancada", criticando tudo da perspectiva do nosso comodismo, não constroi.

Tratar pela rama os problemas, fugindo a uma atitude de compromisso com aquilo que nos custa ver, não constroi.

Ficarmo-nos pelos comentários piedosos ou pela teorização formal dos problemas, não constroi.

Se queremos verdadeiramente crescer e humanizarmo-nos, temos antes de arregaçar as mangas, esquecer as nossas diferenças e perceber finalmente, que a participação de cada um é imprescindível: o sorriso, o calor de um abraço, a palavra que conforta, o olhar que acolhe é o mesmo, seja de quem vier.

Porque não estamos nesse sorriso, nessa palavra, nesse olhar?

Porque não temos tempo.

Porque esse seria tempo em que não "produzimos"...

Teremos porventura de mudar de rumo: esse tempo, que é de parar e de estar, é o único tempo que nos permite encontrarmo-nos face a face, é o único tempo que edifica as pontes e os laços das nossas vidas, com os que estão mais próximos e com os que não têm ninguém, porque o "mundo não acaba à porta das nossas casas".

Joana Pizarro Miranda